
Décadas após as missões Apollo e com programas como a Artemis recolocando a exploração espacial no centro das atenções, Marte segue como um dos principais destinos futuros. Mas, antes de enviar humanos, a pesquisa espacial precisa responder uma pergunta central. Como esse planeta funciona por dentro?
É nesse contexto que a pesquisa geológica ganha protagonismo, mesmo sendo conduzida a milhões de quilômetros de distância.
Fabrizio Comin, geólogo do Grupo Avistar Engenharia, se dedica a investigar o Planalto de Thaumasia, uma região localizada na Elevação Tharsis, uma das maiores estruturas vulcanotectônicas de Marte, que se estende por cerca de 25% da superfície do planeta. O objetivo é ambicioso: identificar e caracterizar estruturas que possam indicar a existência de uma tectônica de placas primitiva no planeta.

Diferente da Terra, onde placas tectônicas estão em constante movimento, Marte não apresenta atividade tectônica atual. No entanto, sua superfície preserva registros geológicos extremamente antigos. Falhas, cadeias montanhosas, vales e estruturas vulcânicas funcionam como um arquivo natural, capaz de revelar processos que ocorreram há bilhões de anos.
No Planalto de Thaumasia, esses registros aparecem em diferentes formas. Estruturas extensionais, como grabens, indicam distensão da crosta. Já as wrinkle ridges sugerem compressão tectônica. A coexistência desses elementos aponta para um comportamento geodinâmico mais complexo do que se imaginava, possivelmente associado a uma fase inicial de mobilidade litosférica em Marte.
Sem a possibilidade de coleta direta de amostras, a investigação depende de tecnologias de sensoriamento remoto e geofísica. Dados de magnetometria, obtidos por missões como a Mars Global Surveyor, permitem analisar o magnetismo remanescente da crosta marciana. Em algumas regiões, esses padrões formam faixas simétricas que lembram aquelas associadas à expansão do fundo oceânico na Terra, sugerindo processos análogos à tectônica de placas.
A gravimetria complementa essa análise ao revelar variações no campo gravitacional, permitindo inferir estruturas enterradas e a espessura da crosta. Já imagens de satélite de alta resolução e modelos digitais de elevação possibilitam a identificação detalhada de feições geomorfológicas e lineamentos estruturais. Essas ferramentas, combinadas, funcionam como um “raio-x” do planeta.

Os resultados esperados não indicam necessariamente uma tectônica de placas ativa como a terrestre, mas apontam para um estágio mais primitivo da dinâmica planetária. Um cenário em que Marte pode ter experimentado formas iniciais de reorganização crustal, antes de evoluir para o modelo atual, mais estático.
A relevância dessa investigação vai além da geologia marciana. Ao compreender como Marte evoluiu de forma diferente da Terra, mesmo sendo um planeta rochoso com características iniciais semelhantes, a ciência avança no entendimento dos processos que moldam planetas. Inclusive o nosso.
Enquanto novas missões espaciais se preparam para explorar o Sistema Solar, pesquisas como essa mostram que a exploração não começa com foguetes. Ela começa com dados, interpretação e pesquisa.
















































