
Há mais de quatro décadas, quando Rondônia ainda desenhava os contornos da sua identidade mineral, Renato Muzzolon chegava ao estado movido por uma combinação rara de curiosidade técnica e disposição para o desafio. O que encontrou foi um território em ebulição: cassiterita emergindo do solo, instituições sendo estruturadas e uma atividade garimpeira que crescia mais rápido do que a capacidade de organização do próprio Estado.
Desde então, sua trajetória se confunde com a própria história recente da mineração rondoniense.
Geólogo, Muzzolon, construiu uma carreira que atravessa diferentes fases do setor mineral: da exploração ainda incipiente dos anos 1980 à complexidade técnica e regulatória dos dias atuais. Sua atuação sempre esteve ancorada em um princípio que reaparece com frequência em suas falas: mineração não é apenas extração, é também planejamento, governança e, sobretudo, responsabilidade social.
Foi com essa perspectiva que ele participou do episódio do PodRondônia Podcast Engenharia, em conversa com Edison Rígoli, presidente do CREA-RO. Ao longo da entrevista, Muzzolon não apenas revisita sua trajetória, mas oferece uma leitura crítica e técnica sobre os desafios estruturais que ainda limitam o pleno desenvolvimento do setor no estado.
Leia trechos da entrevista:
Entre o garimpo e a engenharia
Ao relembrar sua chegada a Rondônia, Muzzolon descreve um cenário marcado pela urgência. A corrida pela cassiterita, especialmente na região de Bom Futuro, colocou o estado no mapa da mineração nacional, mas também expôs fragilidades: ausência de planejamento, lacunas regulatórias e pouca integração entre os atores envolvidos.
Foi nesse contexto que ele passou a atuar não apenas como técnico, mas como articulador de soluções.
Bom Futuro, em particular, tornou-se um laboratório vivo dessa construção. Ali, ao longo de décadas, consolidou-se um modelo de operação que buscou equilibrar interesses muitas vezes conflitantes entre grandes empresas, garimpeiros, poder público e órgãos fiscalizadores. Um arranjo que não nasceu pronto, mas foi sendo ajustado na prática, entre avanços, recuos e negociações contínuas.
“Não havia modelo. Foi preciso construir um”, resume, ao destacar que a mineração exige mais do que conhecimento geológico: exige capacidade de diálogo e visão sistêmica.

O gargalo não está no solo
Se no passado o desafio era estruturar a atividade, hoje, segundo Muzzolon, o problema é outro e talvez mais complexo. Rondônia continua sendo uma potência mineral, mas ainda opera majoritariamente como fornecedora de matéria-prima. Para ele, esse é o ponto crítico.
O estado extrai, mas não transforma. Exporta riqueza bruta e importa valor agregado. O resultado é um ciclo econômico limitado, que não captura todo o potencial da cadeia produtiva mineral.
Durante a entrevista, ele enfatiza que a mudança desse cenário passa por três eixos centrais: investimento em tecnologia, formação de quadros técnicos qualificados e, principalmente, políticas públicas consistentes e de longo prazo.
Sem isso, o risco é claro: perder relevância em um momento em que o mundo disputa justamente os recursos que Rondônia possui em abundância.
Minerais críticos e oportunidades estratégicas
A discussão ganha ainda mais peso quando entram em cena os chamados minerais críticos. Elementos como terras raras, lítio e tungstênio, presentes na Província Estanífera de Rondônia, são fundamentais para tecnologias ligadas à transição energética como baterias, eletrônicos, sistemas de energia limpa.
Na avaliação de Muzzolon, o estado está diante de uma oportunidade histórica.
Mas oportunidade, por si só, não garante desenvolvimento.
Ele alerta que, sem planejamento integrado e sem uma estratégia clara de posicionamento no mercado global, Rondônia pode repetir um padrão já conhecido: explorar recursos valiosos sem transformar essa riqueza em progresso estruturado.
“Não basta ter o recurso. É preciso saber o que fazer com ele”, pontua, ao destacar a necessidade de integrar mineração, indústria e inovação.
Entre a técnica e o compromisso
Ao longo da conversa, um aspecto se destaca de forma recorrente: a preocupação com o impacto social da mineração. Não como discurso, mas como prática.
Essa dimensão acompanha Muzzolon desde experiências anteriores, como sua atuação em projetos voltados à organização social em áreas de garimpo. Para ele, não há desenvolvimento sustentável sem inclusão, sem estrutura urbana adequada e sem acesso a serviços básicos.
A mineração, nesse sentido, precisa ser pensada como vetor de desenvolvimento territorial e não apenas como atividade econômica isolada.
O futuro em construção
Hoje, como sócio do Grupo Avistar Engenharia, Renato Muzzolon segue atuando diretamente em projetos que conectam conhecimento técnico e realidade de campo. Sua leitura sobre o setor não é distante ou teórica: é construída no cotidiano da operação, da gestão e da interlocução com diferentes agentes.
Ao final da entrevista, a mensagem que fica é menos sobre diagnóstico e mais sobre direção.
Rondônia tem potencial mineral comprovado, relevância econômica crescente e uma posição estratégica no cenário nacional. Mas transformar esse conjunto em desenvolvimento real exige mais do que continuidade, exige mudança de abordagem.
Planejar melhor. Integrar mais. Investir com visão de longo prazo. Essa é a visão de Renato Muzzolon e que faz parte do dia a dia do grupo Avistar Engenharia.















































