
Os fungos sempre estiveram entre nós, e como argumenta Merlin Sheldrake, sempre dentro de nós também. Invisíveis na maior parte do tempo, eles compõem a infraestrutura silenciosa que permite que as florestas cresçam, que os solos respirem, que a matéria se decomponha e renasça. Mas A Trama da Vida (Ubu/Fósforo, tradução de Gilberto Stam) propõe algo além: compreender que toda forma de vida depende profundamente dessa rede subterrânea que chamamos de micélio, “o tecido que costura grande parte do mundo”.
A obra, premiada pela Royal Society, faz parte de uma virada contemporânea no pensamento ecológico. Se Galileu dizia que a natureza é escrita em linguagem matemática, Sheldrake parece responder que essa mesma natureza fala hoje em redes, conexões, relações e trocas contínuas: um vocabulário biomicrobiano que desafia categorias clássicas como indivíduo, inteligência, corpo e até o próprio conceito de vida.
Fungos como forma de pensamento
Apresentado como um “livro porta-de-entrada”, A Trama da Vida é menos um manual de micologia e mais um ensaio sobre a interdependência radical da vida. Sheldrake, micólogo desde a infância, combina relatos pessoais, experimentos científicos e reflexões filosóficas para mostrar que os fungos permeiam solos, plantas, animais e rochas; formam micélios que armazenam informação e emitem sinais químicos e elétricos; criam redes de cooperação com árvores, aproximando-se da ideia do “Wood Wide Web”; transformam lixo, petróleo e rochas, tornando-se agentes essenciais na ciclagem de nutrientes; alteram comportamentos animais, como no caso do temido Ophiocordyceps, o fungo que transforma formigas em zumbis.
O leitor percebe rapidamente que a obra desafia o antropocentrismo. Sheldrake insiste: não devemos chamar micélio de “cérebro”, nem falar em “trocas”, “negociação” ou “barganha” entre plantas e fungos. Esses termos são nossos, não deles. O autor luta com a linguagem e nos convida a fazer o mesmo para evitar reduzir o mundo fúngico às nossas metáforas humanas.

Entre ciência e poesia: o micélio como imagem do mundo
Sheldrake é, antes de tudo, um estilista raro da escrita científica. Sua prosa, por vezes poética, descreve o micélio como “tecido conectivo ecológico”, “filigrana anárquica” ou “uma tendência exploratória”.
Ele transita com naturalidade entre explicações técnicas e imagens sensoriais, mostrando como essas redes submicroscópicas reorganizam nossas ideias sobre inteligência sem cérebro; comunicação sem voz; corpos sem fronteiras claras; ecossistemas como coletividades cooperativas, e não arenas de competição pura.
No subsolo, fungos transportam fósforo de regiões abundantes para outras carentes; ajustam fluxos conforme demandas de carbono; sentem equilíbrio, ameaça e nutrição. Chamá-los de “máquinas químicas” seria tão reducionista quanto chamá-los de “agentes racionais”. Sheldrake recorre ao conceito de involução, sugerindo que a vida não evolui apenas em ramificações individuais, mas se entrelaça continuamente em redes híbridas.
Nesse sentido, a obra também funciona como uma crítica à ciência que, historicamente, isolou fenômenos para torná-los compreensíveis. O sucesso da micologia radical, movimento contemporâneo que une amadores, agricultores, artistas, cientistas e entusiastas mostra que fungos são hoje ferramentas filosóficas, ecológicas e políticas.
Ler Sheldrake é, portanto, mais que aprender sobre fungos. É aprender sobre os limites das nossas narrativas científicas e sobre como expandi-las.
A compreensão moderna sobre fungos, longe da imagem de podridão ou doença, revela seres com papéis estruturantes, já que 90% das plantas dependem deles para obter minerais. Além disso, eles produziram compostos fundamentais da medicina, como antibióticos. Formam 50 megatoneladas de esporos por ano, influenciando até padrões de chuva. Além de permitirem que as primeiras plantas ocupassem o ambiente terrestre e sustentar redes subterrâneas que conectam florestas inteiras.
Ao final, o livro nos lembra que a pergunta “o que é a vida?” pode ser menos importante do que “como a vida se relaciona consigo mesma?”. Sheldrake não oferece respostas fechadas, mas novas formas de olhar para seres compostos, interdependentes, permeáveis e radicalmente ligados ao que está ao nosso redor, inclusive ao que não vemos.
Por que este livro inaugura nossa coluna
No Grupo Avistar Engenharia, trabalhamos diariamente com ecossistemas, impacto ambiental, geologia, florestas e infraestruturas que estão profundamente conectadas à vida subterrânea. Ler Sheldrake é um exercício de humildade científica e uma meditação sobre responsabilidade ambiental.
A trama da vida é, portanto, um manifesto: uma convocação para olhar o mundo com mais porosidade, mais curiosidade e mais conexão, ou seja, lembrar que o mundo não é feito de entidades separadas, mas de enredos compartilhados. Que a vida acontece nas margens, nas fronteiras e nas fusões. Que, como os fungos, também somos uma rede e talvez seja hora de reconhecê-la.





















































